terça-feira, abril 24, 2007

Alzheimer.

O meu avô anda esquecido. Diria eu se ainda fosse o menino.

Assim, digo que assisto impotente ao prenúncio da sua morte. "- Nesta terra", acrescenta sempre a minha avó. E dói. Dói muito.

Hoje, para ti, quase tudo é fotografia empalecida. Quase tudo é um indecifrável enredo.

As tuas mãos agora só servem para descansar sobre os joelhos. O teu tempo já não se renova. Tudo em ti é hoje ferverosa saliva; todas essas partículas e músculos que o tempo uniu e o trabalho fortificou.

Às vezes, ainda soluças verdades. Às vezes, a tua enfadada boca ainda sente o gosto da memória e deixa escapar pequenas coisas.

Ainda assim, prefiro continuar a falar contigo. Como sempre!

2 comentários:

Sónia Balacó disse...

Ele não vê nem pressente
que cada vez que os meus olhos
se lhe dirigem
o choro já.
Não é ele ali mas, sim, ossos
e pele e músculos a esvairem-se
- ou a vida a esvair-se deles.
E enquanto lhe retribuo um sorriso,
desfaço-me na impotência.
Abraços que vão deixar de o ser
impedem que o sejam já.
São só tentativas de polaroid,
colar com laca o que não ficará nunca.
Ele não sabe que é já em mim que morre quando me sorri.

Algo antigo e meu. Um arrepio em comum.

A.S. disse...

E o que eu gosto de arrepios em comum :-)

Obrigado!