Devo já confessar uma coisa, eu só vejo a TVI por acidente ou quando o Sporting joga… O que no fundo é a mesma coisa. Ainda assim, o mais recente programa de televisão do segundo canal privado em Portugal despertou em mim o bárbaro escondido. Partindo princípio de que os homens portugueses não apreciam mulheres, a TVI decidiu empanturrar-nos com 8 jovens mulheres que foram descritas como “belas e lindas”. Depois de ver o espectáculo, enquanto homem senti-me insultado. Insultado, sim. No fundo, querem fazer crer que são aquelas as mulheres pretendidas, desejadas e que todos os homens querem. Longe, meus amigos. Muito longe. Do outro lado, estavam 8 jovens que nos foram apresentados como sendo “inteligentes e cultos”. Bem, para a TVI e respectiva direcção de programas, um homem inteligente tem que ser fisicamente inapto e um mendicante estético. Não vou aqui discutir o que levou a direcção de programas a escolher aqueles 8 espécimes como representantes da espécie enumerada, mas não posso deixar de realçar que achei curioso o facto de vários dos intervenientes masculinos terem dito que passavam grande parte do seu tempo sozinhos nos respectivos quartos… Parece-me que vamos assistir a uma intelectualidade “fabulada” e a uma cultura “computorizada”…
O pior (ou melhor, dirão os directores da TVI) vem quando estes opostos nos são apresentados como verdadeiros e reais, se bem que o co-apresentador por várias vezes fez questão de realçar que a sua colega apresentadora é bonita e também inteligente… Uma excepção, pois claro! Já o apresentador não se coibiu de dizer, em jeito de graçola lânguida, que ele encarnava perfeitamente a lógica do programa já que era feio e achava que “sabia umas coisitas”…
O programa não tem obviamente importância alguma e é adornado com alguns floreios de humor mais ou menos dissoluto. Para esse tipo de humor em tudo contribuiu, como já referi, o co-apresentador. Então o porquê deste comentário? Bem, felizmente fomos providos de sentido crítico. Às mais pequenas minudências apresentamos críticas ou reparos, então porque não fazê-las a este insignificante programa? É para isso que existe a crítica ou a simples faculdade de cada um poder decidir a que espectáculos quer assistir e aqueles a que, por qualquer razão, não pretende destinar um único segundo da sua atenção. É este o caso.
Pese embora a insignificância do programa enquanto espectáculo, como já dizia Benjamin Franklin, “Quem abdica de uma liberdade essencial em troca de segurança temporária não merece a liberdade nem a segurança.” Serve este aforismo na perfeição para ilustrar o risco associado a sucessivos episódios em que as sociedades ocidentais vão dando sinais de estarem dispostas a baixar os níveis de exigência no que concerne às suas mundividências.
O mais recente palco desta queda sibilina, que dá pelo nome de “A bela e o mestre”, ilustra na perfeição o que Franklin quis dizer. É a busca da glória fácil, da fama rápida que alimenta estes concorrentes. Eles são uma espécie de “Zé Cabra” da televisão. Querem sucesso por não terem talento absolutamente algum.
Só o nome do programa já tem muito que se lhe diga. Todos estes anos de desenvolvimento científico, social e político para voltarmos à bela máxima da “loira burra”. A mulher, qual primata desorientada, tem ali a sua oportunidade de sair do mundo das sombras e de ser guiada pelo seu mestre. E que mestres elas têm pela frente. Ainda não percebi qual é o objectivo do programa. Se calhar, a TVI decidiu deixar cair a máscara e finalmente assumiu que pretende, neste caso, explorar os corpos de 8 jovens mulheres para assim tentar fazer disparar as audiências…
De facto, a beleza e a inteligência, para os criadores deste programa, devem ser pólos opostos ainda que, esperam eles a bem das já referidas audiências, se atraiam, de preferência ao vivo e sem lençóis que impeçam a “cobertura” em directo…
Lembrei-me de Voltaire que pedia a Deus que tornasse ridículos os seus inimigos. Certamente, que nem Voltaire teria pedido tanto…
Rilke dizia que “todas as coisas ressoam a profundidade infinita, todos os elementos se reúnem com o Mundo”, pois bem, neste caso, todos os elementos se reúnem numa atitude negativa, que não promove a criação de qualquer tipo de valores, é o verdadeiro desencantamento do mundo.
Não quero aqui proclamar um dogmatismo ou uma autoridade moral, até por que o sermão é um terreno bastante permeável ao delito de personalidade, mas acho perfeitamente dispensável este tipo de programa. Estamos perante um palco explorador e exploratório da condição humana. Não há vestígio de dignidade naquele espectáculo. Talvez por isso, o co-apresentador tenha realçado, por diversas vezes, a presença de dois professores universitários no júri, para deste modo conferir credibilidade ao formato do programa. Mais um preconceitozinho assumido… Os alunos que vão ser avaliados pelas sumidades universitárias.
Chamemos-lhe o que quisermos. Eu digo que falta sensibilidade. Para além de estarmos perante um verdadeiro marasmo intelectual. Um transplante de mediocridade.
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