sexta-feira, janeiro 19, 2007

As consequências psíquicas do aborto

Pedro Afonso
Médico Psiquiatra


Embora não haja propriamente consenso entre os psiquiatras sobre a existência de um síndrome pós-aborto, a verdade é que existem inúmeros estudos publicados que indicam a existência de uma relação entre a prática de aborto e um risco acrescido de perturbações psiquiátricas. As patologias associadas são várias: perturbações depressivas e ansiosas, disfunções sexuais, ideação suicida e comportamentos suicidários, abuso de álcool e drogas, stresse pós-traumático, etc. Esta última patologia acaba por ser aquela que mais se aproxima do designado “síndrome pós-aborto”. Nesta situação, observa-se a presença de uma constelação de sinais e sintomas, cuja origem se encontra relacionada com a experiência de um evento traumático, e que neste caso corresponde ao aborto.

Para a mulher, o aborto é praticado muitas vezes em situações bastante difíceis: a pressão e as ameaças dos familiares ou do companheiro, a ambivalência face à decisão de abortar, ocorrendo nalguns casos a própria ruptura da relação amorosa que esteve na origem da gravidez. Mas, para muitas mulheres o aborto em si, não é um acontecimento traumático, logo não podemos generalizar – dirão alguns. Contudo, não se trata de estabelecer uma relação causal absoluta, mas uma relação de risco aumentado, cujas consequências individuais não podem ser desvalorizadas.

Excluindo a presença de uma perturbação de personalidade psicopática e os desvios sádico-masoquistas, e partindo do princípio que fazer um aborto não é um processo agradável, um dos mecanismos de defesa que pode ser utilizado pela mulher que aborta é a “racionalização”. Neste caso, encontrada a justificação racional para a decisão de abortar, o próprio acto é visto pela própria, acima de tudo, como um procedimento físico. Pretende-se assim que o impacto emocional da perda do bebé seja atenuado ou mesmo anulado. Sabemos, porém, que a as consequências psicológicas do aborto são normalmente sentidas a longo prazo. Tal como ocorre designadamente no stress pós-traumático, o período entre a ocorrência do aborto e o aparecimento dos sintomas psíquicos pode demorar alguns anos.

Aos poucos, os mecanismos de defesa psicológicos utilizados – nomeadamente a racionalização, o recalcamento ou a negação – acabam por ceder, abrindo caminho para o aparecimento de um sentimento de perda ou de luto, podendo conduzir a uma desordem psíquica. A sintomatologia poderá surgir através de somatizações (sintomas físicos sem causa orgânica explicável, sendo expressão, no entanto, de doença psíquica) como é o caso de cefaleias, queixas gastrointestinais, astenia, insónia, etc., que podem mascarar a existência de uma perturbação psíquica. Este padrão de reacção retardada é muitas vezes menosprezado. Por isso é que os vários estudos a longo prazo detectam um maior número de perturbações psíquicas na mulher que abortou, contrariando os dados a curto prazo que nalguns casos podem não revelar grandes diferenças.

A par do sentimento de perda referido, surge ainda frequentemente o sentimento de culpa. Este é um sentimento para a mulher altamente perturbador e causador de um sofrimento incomensurável. Os defensores do aborto, neste caso, argumentarão que se existe culpa é porque alguém a originou (a religião, os familiares mais conservadores, o estado que impede o aborto, etc.). Em parte, é verdade, já que todos nós tivemos uma educação normativa em função de valores sociais, éticos, morais, etc. Na realidade, é a culpa que protege a sociedade de si própria, nomeadamente de o homem passar ao acto alguns dos seus impulsos mais primários, como é o caso da violência, a sexualidade, o domínio sobre o mais fraco, etc. É também a culpa, um dos factores que contribui para proteger o homem de se suicidar, controlando os seus ímpetos autodestrutivos. Neste contexto, o relativismo intelectual que recusa a existência de regras e de conceitos como o que está “certo” ou “ errado”, acaba por ser altamente perturbador da vida psíquica, originando o caos do mundo interno da pessoa, conduzindo à psicose.

Quais são afinal as mulheres que têm maior risco de apresentarem consequências psíquicas do aborto? No grupo de maior risco, encontram-se as mulheres mais jovens, separadas, com antecedentes de doença psiquiátrica, com baixo apoio social e que foram coagidas a abortar.

Quando se debate o tema do aborto raramente se aborda as suas consequências psíquicas. Aliás, passa-se a ideia para a opinião pública que, estando garantidos os meios médicos e técnicos adequados para realizar o aborto, não existem problemas de maior para a mulher – o que não corresponde à verdade. Observam-se sequelas psíquicas em muitas mulheres que praticaram o aborto, mesmo no caso de este ter sido realizado no âmbito de um quadro legal e em ambiente hospitalar. A comprová-lo está o maior número de admissões psiquiátricas observadas em mulheres que abortaram face àquelas que levaram por diante a sua gravidez.

Em suma, importa esclarecer que, em muitos casos, o aborto pode ter efeitos deletérios na saúde psíquica da mulher, sendo este facto confirmado por inúmera documentação científica credível. Este é um ponto fundamental no debate sobre a liberalização do aborto e que não pode ser ignorado.

2 comentários:

Anónimo disse...

ainda bem q este factor tão importante é focado, pq realmente é muitas vezes esquecido. No entanto, n esqueçamos q é um psiquiatra...

Anónimo disse...

Ola, eu estou para escrever num site há 6 ou 7 meses. Fui única, passei pelos dois processos de aborto. Primeiro, a viver num país que não era Portugal, peguei num avião para fazer um aborto, no sul de Portugal onde ninguém me conhecia..Fingi, menti, que estava fora, estava sozinha com 24 anos e um namorado de um cultura completamente diferente que borrifou para o assunto, acabei logo com ele. Quando tomei a decisão para o fazer, ou não fazer, na primeira ecografia o bebe que deveria ter 7 semanas, tinha 2....Gravidez não evolutiva. Revolta, culpa, não o queria, afinal desejava-o como nunca. Fui para o Centro de Portugal, o melhor hospital, fui tratada como uma rainha afinal de contas ele estava morto, coitadinha. No sul, fui mal tratada, mulheres ás 8 da manhã, umas 15 para fazerem o aborto, a médica berrava e tratava-nos a todas na fila como vacas leiteiras. Ainda com barriga e alguns sintomas de gravidez apareci de supresa perante a minha familia. Tas gorda, é normal é da comida do país onde vives. Fiquei com eles 5 dias, mal me lembro desses dias, sofri horrores, olhava-me ao espelho e só me lembro de estar branca e de meter a mão na barriga, afinal eu queria-o, eu desejava, eu queria ser mãe.
Volto para o meu país, comentam que estou mais magra, o pai de diferente cultura, deseja-me mais do que nunca ( afinal resolvi tudo sozinha, fui corajosa de mais para ele, deveria querer me compensar, adorava espetar lhe a ecografia do filho dele morto na cara, nunca tive coragem, levo a fotografia todos os dias na minha carteira) . Eu estava fraca, mais do que nunca, não sabia onde ja andavam as minhas mentiras, continuava a falar com o bebe que já não estava aqui dentro.
Sofri, deprimida, adoro bebes, vejo bebes, pego em bebes, tenho pesadelos, quero entrar em lojas de bebes, quero que um homem me agarre, quer que me digam que foste forte, que és mulher...
Sintomas depresivos...ao fim de 8 meses ainda os tenho. Uma dor tão grande que nem sei explicar, apetece me engravidar do ar, apetece me falar sobre o assunto, ninguem me houve só comentam "já passou". Se nós mulheres nos ajudassemos a todas, não estariamos assim com tantos pensamentos depresivos. Obrigada por escrever este artigo. Ajudou me a encaixar ideias. E sim, mesmo sendo aborto expontaneo, ou não evolutivo a mulher sofre...mais do que nunca! Sem nunca ter ajuda!